Caminho de Santiago – Minha Experiência Pelo Caminho Francês

Obs.: Post sobre o Caminho Francês. Há post sobre o Caminho Português aqui

Segundo o cristianismo, São Tiago era um apóstolo de Jesus que escolheu as terras hispanas para a evangelização, mas que retornou a Jerusalém, onde morreu nas mãos de Herodes. Durante a noite, dois de seus discípulos depositaram seus restos mortais em um barco, que foi guiado por um anjo , parando junto a um antigo cemitério. Seu corpo ficou oculto até que, no início do século IX, uma luz indicou a um eremita o local do túmulo, que passou a ser conhecido nos textos medievais como Campus Stellae, termo que mais tarde daria origem à denominação Compostela.

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Ponte medieval no caminho

Foi o Rei Afonso II quem mandou construir uma capela em honra do apóstolo, proclamando-o padroeiro e guardião de todo o seu reino.

O deslocamento dos peregrinos até Santiago de Compostela acabou por favorecer o desenvolvimento de diversas cidadezinhas medievais ao longo da rota, a maioria das quais conserva a arquitetura original até hoje.

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Alguma das cidadezinhas cortadas pelo caminho

*Aliás, a quem possa se interessar, a versão menos romântica da história é que o próprio Rei Afonso II inventou toda essa história exatamente para gerar esses deslocamentos e ocupação do norte da Espanha, para impedir o avanço dos mouros, que já tomavam grande parte da península ibérica.

Foram muitos os caminhos criados pelos peregrinos, mas hoje em dias os mais conhecidos deles são:

Caminho Francês (764kms). Mais longo e mais tradicional, parte de Saint-Jean-Pied-de-Port, na França, e corta o norte da Espanha de ponta a ponta. Nos séculos XI-XII foi privilegiado pelos monarcas como o principal itinerário jacobeu.

Caminho Português. A Débora fez post sobre ele aqui.

Caminho Primitivo (137,4kms).  Utilizado pelos primeiros devotos, é o primeiro itinerário Jacobeu (daí sua atual denominação). Possivelmente, foi a rota percorrida pelo Rei Afonso II.

Foi mais por curiosidade histórica – de refazer um trajeto que já foi realizado por tantas pessoas há tantos séculos – que o caminho me atraiu. Sempre tive muita curiosidade, mas a viagem sempre acabava ficando para depois, talvez exatamente por eu não ter nenhum motivo especial/religioso para fazê-lo.

Até que, no começo desse ano, várias referências ao caminho começaram a aparecer na minha vida e, na hora de decidir dentro da minha (imensa) bucket list qual seria o destino das férias, nada me atraía mais do que o caminho. Comecei a dar uma pesquisada e li que “o caminho te chama”. Aí não teve jeito, decidi que era hora de fazê-lo.

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Eu e o caminho, o caminho e eu.

Aliás, quando comecei mesmo a fazer as pesquisas, confesso que fiquei um pouco assustada com o que me pareceu uma espécie de “seita”. As pessoas falavam do caminho como se ele fosse uma entidade, com vontades e razões próprias. Eu, que sou meio cética e bem racional, comecei a me perguntar se aquilo era pra mim. Depois conversei com um amigo  que também tinha feito o caminho sem razão nenhuma e que tinha adorado e me tranquilizei.

Informações Práticas

Uma vez decidida pelo caminho, as dúvidas começaram a aparecer. Eu sou bem controladora e organizada com viagens, então gosto de partir com o maior número de informações possível e com a maior parte das coisas já organizadas. Só que isso é praticamente impossível quando se trata do Caminho de Santiago.

A falta de informações detalhadas deixa muitas pessoas inseguras antes de partir, mas, depois de ter feito essa viagem, posso afirmar com tranquilidade: a falta de informações decorre unicamente do fato de não ter muitas informações para dar hehehe.

O caminho francês passa pelo meio de plantações de eucaliptos, bosques, fazendas. Não tem como fazer um mapa sobre o trajeto. Além disso, o caminho é inteiro marcado por setas amarelas e totens com a concha (símbolo do caminho).

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Sempre que você pensar em ter dúvidas sobre qual direção seguir, pode ficar tranquilo que tem uma seta para te ajudar. É praticamente impossível se perder.

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Assim, o máximo que os guias podem te ajudar é descrevendo por quais cidadezinhas você passará naquele dia e quais possuem bares ou lanchonetes onde você pode matar a fome, a sede, usar o banheiro e descansar um pouco. Mas fique tranquilo porque são muitos ao longo do caminho, não é preciso saber onde eles estão com antecedência.

Antes de começar o Caminho de Santiago, você precisa retirar a sua Credencial do Peregrino, um documento com seu nome e com diversos campos para que você recolha carimbos (sellos) dos lugares por onde passar. Você pode pegá-los em albergues, restaurantes, bares, prefeituras, igrejas etc. Caso esses carimbos comprovem que você caminhou 100kms (ou percorreu 200kms de bicicleta), chegando em Santiago você poderá retirar a Compostelana, um documento que comprova a peregrinação.

Caso já queira sair com sua credencial aqui do Brasil, é possível retirá-la na Associação de Confrades e Amigos do Caminho de Santiago de Compostela (SP)   ou na Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago (RJ).  Caso não more em algumas dessas cidades, é possível entrar em contato com essas associações para receber o documento por correio.

As informações sobre hospedagem e o que levar estão no final desse post.

Meu Roteiro

Uma informação bacana a se pesquisar são os trajetos sugeridos pelos guias. Muitos dividem o caminho em dias e sugerem de qual cidade partir e a qual chegar a cada dia. Se você seguir esses roteiros, provavelmente sua cidade final será uma cidade com uma quantidade razoável de hospedagens e restaurantes.

Eu utilizei a divisão do Lonely Planet, que é a mesma desse site aqui.

Optei por fazer os últimos 100kms do Caminho Francês, trecho que corta a Galícia e que dizem ser um dos mais bonitos. Escolhi Sarria como ponto de partida pois há trens da Renfe que levam até a cidade desde Madri.

Meu roteiro ficou da seguinte forma:

1o Dia: Sarria – Portomarín (22,4 Kms)

2º Dia: Portomarín – Palas Del Rei (25 Kms)

3º Dia: Palas Del Rei – Melide (14,8 Kms*)

4º Dia: Melide – Arzúa (14 Kms*)

5º Dia: Arzúa – Pedrouzo (19,1 Kms)

6º Dia: Pedrouzo – Santiago (20 Kms)

*Os guias sugerem fazer no mesmo dia o trecho de Palas de Rei a Arzúa (28,8 kms). Eu optei por quebrar o trecho em dois dias, porque esse trecho cairia no meu 3º dia de caminhada e tinha ouvido relatos que o 3º dia geralmente é o mais sofrido, porque você já sente o cansaço acumulado dos dois primeiros dias, mas o corpo ainda não se habituou às caminhadas. 

Fui sozinha, cheguei em Sarria debaixo de chuva e o primeiro pensamento que veio à minha cabeça foi: “o que estou fazendo aqui?“. Mas logo no primeiro dia o sol saiu, o início do caminho era lindo e me animei.

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Campo de girassóis na saída de Sarria

Em todos os dias acabei percorrendo grandes trechos com alguém que conheci ao longo do caminho, cada pessoa de uma parte do mundo, cada uma com um motivo especial para estar fazendo o percurso.

Engraçado, mas, com o passar dos dias, eu (que sou super sociável) fui preferindo ficar cada vez mais sozinha. Conversava um pouco com as pessoas que ia encontrando, mas logo depois dava tchau e seguia meu percurso só com meus pensamentos.

Pensei em descrever o roteiro dia a dia, mas não tem muito o que falar sobre o trajeto em si sem ficar repetitiva. Todos os dias passei por lugares lindos, cidadezinhas medievais, bosques de fazer cair o queixo.

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Muitos percursos cortam bosques como esse.

Também, em todos os dias, houve uma grande quantidade de bares e lanchonetes à beira do caminho.

A única indicação mais turística do trecho que percorri fica em Mélide, mais especificamente a Pulpería Ezequiel. A galícia é conhecida pela sua ótima gastronomia e uma de suas especialidades é o polvo. Dentro dessa especialidade, Mélide é a cidade mais famosa, sendo a Pulpería Ezequiel a mais conhecida e considerada como a melhor da região.

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O famoso polvo da Pulpería Ezequiel.

Ainda falando em pontos de destaque, no trecho Pedrouzo – Santiago passa-se pelo povoado de Lavacolla, que leva esse nome pois no Rio Sionlla os peregrinos deixavam suas roupas sujas, se banhavam e se trocavam para se preparar para a chegada a Santiago. Não há muito para ver, apenas a curiosidade histórica ao passar por cima do rio.

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Lavacolla

Nesse mesmo trecho, um pouco antes de chegar a Santiago, chega-se ao Monte Gozo, que leva esse nome por ser de lá a primeira vez em que se avista as torres da catedral. Você pode seguir o seu caminho reto ou desviar um pouco para a esquerda, para visitar o monumento construído em homenagem aos peregrinos.

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Monte Gozo

Eu não sou a pessoa que mais pratica exercícios físicos na vida, mas antes de ir estava tentando pelo menos 4x na semana fazer uns 30 minutos de esteira, colocando algumas subidas. Achei o percurso bem tranquilo, não cheguei morta em nenhum dos dias.

Os últimos 100 kms do Caminho Francês é provavelmente o trecho mais conhecido e mais cheio do Caminho de Santiago em geral, então provavelmente você encontrará muitos outros peregrinos pelo caminho. Caso tenha algum problema, é só pedir ajuda para alguém. Ele também é relativamente plano e não há muitas subidas ou descidas que causem problemas.

Quanto à caminhada, o mais importante é respeitar o seu ritmo e o seu corpo. Todos os lugares que li indicavam parar por 15 minutos a cada 1h de caminhada, tirar o tênis/botas/meias e deixar os pés respirarem.

Eu, particularmente, preferia não tirar o tênis nem a meia se nada estivesse incomodando e parava apenas quando estava começando a ficar cansada. Logo que começava a sentir os primeiros sinais de cansaço, parava no primeiro  bar que encontrava. Como os bares podem demorar até uns 3 kms para aparecer, se sentia que estava minimamente cansada quando passava por um, não deixava de sentar e tomar pelo menos uma água.

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Também optei por tomar um café da manhã reforçado na cidade da qual partia, fazer pequenos lanchinhos ao longo do caminho e deixar para almoçar só na minha cidade de destino. Mas isso porque eu saía cedo, por volta da 7am, pelo motivo que vou explicar na parte de hospedagem.

Dessa forma, eu chegava na minha cidade de destino por volta 13/14 horas, deixava a mochila no quarto e saía para almoçar. Assim, a hora que batia aquela preguicinha pós almoço eu tinha todo o tempo livre do mundo para descansar sob o sol em alguma pracinha ou até mesmo na cama do hotel/albergue.

Mas cada um tem o seu ritmo de viagem e tem gente que prefere fazer o caminho com a maior calma durante todo o dia, com longas pausas de almoço e descanso.

Aliás, a comida da Galícia é muito boa e a grande maioria dos restaurante oferece o menu peregrino: entrada, prato principal, sobremesa e vinho/água por um preço fixo (que variava entre 9 e 15 euros quando fui).

Chegando a Santiago de Compostela

O caminho pode ter diversos inícios, mas só tem um fim: a Catedral de Santiago de Compostela, onde estão enterrados os ossos do apóstolo.

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Concha na Praça da Catedral

A entrada na cidade de Santiago deixa um pouco a desejar, pois entra-se por uma parte moderna da cidade, que contrasta com todo o clima medieval que dominou o caminho. Enquanto você está caminhando entre bosques e construções antigas, parece fazer todo o sentido fazer o percurso à pé. A coisa muda um pouco de figura quando você entra numa cidade moderna e eu, particularmente, me senti meio esquisita andando ali de mochila. A sorte é que esse sentimento passa rápido ao entrar na parte velha da cidade.

Mesmo para quem, como eu, não é devoto, a chegada à catedral é muito emocionante. A sensação é de superação por ter chegada até ali apenas com seus pés e com o que você pode carregar na mochila. Além disso, todos os que chegam até o local estão na mesma energia e é muito legal ficar sentado ali um pouco vendo a emoção e as diferentes reações de cada um que completa o caminho.

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Uma vez na catedral, há algumas tradições a serem cumpridas. Informações oficiais aqui.

A primeira delas é no Pórtico da Glória, que fica logo na entrada principal. Eu não fiz porque a fachada da catedral e o próprio pórtico estavam em reforma, com a porta principal fechada (tive que entrar pela porta lateral). Caso você não dê o mesmo azar, o rito manda cruzar o pórtico dizendo “creio em um só Deus”.

Outra tradição muito importante é o abraço ao apóstolo Santiago. Sobe-se ao altar pelas costas do santo e abraça-se a estátua enorme. Eu só agradeci pelo caminho e fiz um pedido, mas depois descobri que o ritual é dizer: “Obrigado amigo Santiago, irmão Santiago, por me ajudar a chegar até aqui. Obrigada por sua pessoa, por sua companhia, por seu testemunho e por seu legado”.

Por fim, desce-se até a cripta, onde estão as paredes do antigo túmulo do apóstolo e a urna com seus restos mortais.

Mas, de todas as tradições, a mais importante é a Missa do Peregrino, que acontece todos os dias às 12:00 e às 19:30. Tente chegar um pouquinho mais cedo para garantir um lugar sentado. Na missa são faladas as nacionalidades de todas as pessoas que pegaram a Compostela no dia anterior e de onde partiram.

O famoso botafumeiro da catedral é utilizado somente nas missas de sexta-feira, às 19:30. Caso tenha possibilidade, vale a pena se programar para assistir a essa missa, quando o incensário de prata percorre a igreja a cerca de 60kms/h.

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Altar da catedral e o botafumeiro

A origem do famoso botafumeiro é exatamente o Caminho de Santiago e o instrumento era utilizado para tentar amenizar um pouco o cheiro que pairava na igreja com tantos peregrinos reunidos (banho era luxo na época medieval rs!).

Por fim, falando na Compostela, caso tenha percorrido os 100kms à pé ou 200kms de bicicleta e coletado os carimbos na sua Credencial do Peregrino, não se esqueça de ir até até a Oficina dos Peregrinos (Calle Vilar) para receber seu documento e o último carimbo na sua credencial: o da própria Catedral de Santiago de Compostela.

Hospedagem

Antes de falar da minha hospedagem, é importante lembrar que com a Credencial do Peregrino você pode se alojar de graça em albergues públicos, que pedem apenas uma contribuição (o que você quiser deixar) para a manutenção do lugar.

Não cheguei a usar nenhum albergue público. Dava preferência a hotéis para ter um quarto só pra mim, para poder descansar bem à noite sem muito barulho e para poder tomar banho com mais privacidade em um banheiro limpo. Mas também não ficava procurando muito e nem saía muito do trajeto do caminho para dentro das cidades. Quando não encontrei hotel ou hostel com quarto privado, fiquei em quartos compartilhados numa boa.

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O preço do quarto nos hotéis (simples) que fiquei ao longo do trajeto variavam de 20 a 30 euros. O preço das camas nos albergues privados era de 8 a 10 euros (preços de agosto/2015).

Como eu não sabia se ia realmente conseguir andar a quantidade de quilômetros que tinha planejado, optei por não reservar os hotéis do meio do trajeto. Tá bom, confesso que até tentei buscar alguns hotéis nas cidades pelo booking, mas não encontrei muitas opções e desencanei. Assim, eu chegava no meu destino final e ia buscar meu hotel. Foi bem tranquilo, não tive problemas.

Caso você opte por ficar só em albergues, uma boa estratégia é começar o seu caminho bem cedo, até umas 7am, principalmente na alta temporada. Assim você chegará cedo na sua cidade de destino, poderá escolher entre os vários albergues ainda disponíveis, poderá escolher uma cama boa (vale a pena evitar as camas perto das portas de entrada, de saída e do banheiro, nas quais há sempre mais vai e vem e barulho) e – o mais importante na minha opinião – usar o banheiro compartilhado ainda limpo!

Os únicos hotéis/hostels que reservei foi o hostel de Sarria (de onde comecei o caminho) e o hotel de Santiago de Compostela, porque queria muito ficar no Parador da praça da catedral.

Meu hostel de Sarria foi o La Estacion. Era um quarto com 3 camas e um banheiro para ser dividido entre as 3 pessoas que supostamente ficariam no quarto, mas dei a sorte de estar sozinha. O hostel é bem arrumadinho e limpinho, mas fica um pouco afastado do trecho por onde passa o caminho.

Em Portomarín fiquei na Posada del Camino, que fica logo ao lado esquerdo da igreja na praça principal. 20 euros por um quarto e banheiro privados. Tudo bem simples, mas limpo. Obs.: não é o dessa página aqui, caso jogue no Google.

Não consigo me lembrar os albergues que fiquei em Palas Del Rei e Arzúa, nem o hotel que fiquei em Mélide.

Em Pedrouzo fiquei em um hostel que pareceu um sonho depois de ter me hospedado em tanto lugar feio. O hostel chama 9 de Abril, fica na avenida principal e o dono é super simpático, te dá todas as dicas da cidade. A cada andar tem um quarto duplo com banheiro privado e um quarto duplo e outro triplo que dividem o banheiro. Ou seja, mesmo que você fique no quarto compartilhado (como eu hehe), o banheiro é dividido com no máximo 5 pessoas. O preço da cama foi carinho (20 euros), mas a qualidade é realmente acima da média (só pra começar, a cama tem lençol limpinho e eles oferecem toalha!).

Em Santiago me dei ao luxo de ficar no Parador, não tanto pelas comodidades do hotel e pelo nome da rede, mas por ele estar situado no prédio onde ficava o antigo Hospital dos Reis Católicos e ser decorado com muitas peças da época. Fundado em 1499 para abrigar os peregrinos, é considerado o hotel mais antigo do mundo. Além disso, o hotel fica na própria Praça do Obradoiro, ao lado esquerdo de quem olha para a catedral. Localização privilegiada.

O que levar

As indicações que li em todos os lugares é que o ideal é que sua mochila tenha apenas 10% do seu peso, limitada a 8kgs.

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Eu e meus melhores amigos: a mochila e os tênis.

A quantidade de roupas a levar depende, óbvio, da quantidade de dias que você vai caminhar. Como eu ia andar só por 6 dias e era verão, acabei levando uma blusa (que não pesa quase nada) para cada dia e 3 shorts (que repeti uma vez cada). Assim não precisei me preocupar em lavar roupas durante o caminho.

Mesmo em agosto (como eu saía cedo) fazia um friozinho de manhã, então tive que repetir quase todos os dias um único casaquinho que tinha levado por pura precaução (pois é heheh).

Na hora de escolher entre tênis ou bota, optei pelo primeiro. Preferi o tênis porque ia fazer o caminho em agosto e as botas são muito quentes. Além disso, levei um tênis que sempre uso, então já sabia que não ia machucar em nenhum lugar.

Na nécessaire, protetor solar, shampoo e condicionar eu coloquei dentro daqueles frasquinhos pequenos de viagem, para diminuir o peso. Também é bom levar um sabonete para o caso de dormir em albergues.

Falando em albergues, caso opte por essa forma de hospedagem, é imprescindível um saco de dormir (muitos albergues não oferecem lençol) e uma toalha de banho. Eu levei o saco Dreamlite da Deuter, que pesa só 500g e ocupa um espaço bem pequeno na mala. A toalha levei de microfibra, porque elas secam super rápido. Assim você evita de guardar uma toalha úmida e mais pesada na sua mochila.

Para o cuidado com os pés, os itens variam muito. Meu pé forma bolhas muito fácil, então eu fazia quase um esquema de guerra antes de sair do hotel. Tomava banho à noite para não ter que tomar de manhã, assim tinha certeza que meu pé estaria bem seco. Enrolava meus dedos um a um em esparadrapo micropore para evitar o atrito entre eles. Por fim, lotava o pé de talco granado, para evitar a umidade durante o dia.

Também levei meias com a tecnologia coolmax, que deixam os pés secos. Dá para encontrar em quase todas as lojas de esporte, mas os preços variam muito. Comprei as minhas no Mundo Terra por um preço mais justo.

Isso tudo funcionou muito bem durante os 4 primeiros dias. O problema é que no meu quinto dia choveu durante o percurso inteiro e fiquei com o pé encharcado. Óbvio que cheguei no hotel com bolhas. Mas para isso, todas as farmácias espanholas vendem Compeed, uma espécie de segunda pele que se cola em cima da bolha e que protege muito a área machucada. Não sou médica e nem sei se é o certo a fazer, mas eu furei minhas bolhas com agulha e linha (vale a pena levar na mala), esperei secar bem e colei o Compeed em cima. No dia seguinte meu pé estava novo.

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Com chuva ou sol, continue caminhando.

A capa de chuva eu deixei para comprar lá, porque eles já vendem uma especial que pode ser colocada por cima do corpo já com a mochila (como as da foto).

Outro acessório usado por 90% dos peregrinos é o cajado. Eu não levei porque não queria mais uma coisa para carregar e prefiro andar com as mãos livres, então não sei dizer o quanto ele realmente ajuda. Conheci um senhor que me falou que quando comprou o segundo cajado (para ficar com um em cada mão) passou a andar muito mais rápido. Se você for cruzar os pirineus (início do Caminho Francês) também vale a pena considerar, porque ele dá firmeza nas subidas e descidas.

Por fim, é uma tradição do caminho levar com você uma concha, símbolo do Caminho de Santiago e símbolo do conhecimento que se vai adquirindo ao percorrê-lo. Entretanto, o conhecimento só vale quando compartilhado, então, para cumprir à risca a tradição, a concha depois deve ser jogada ao mar, para dividir a sabedoria adquirida com o mundo.

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Minha concha chegou em Santiago!

O caminho é realmente cercado de tradições e de lendas. Seu significado e misticidade  varia muito da interpretação que cada um lhe dá. Só uma coisa não dá para negar: após tantos quilômetros andados, só com o essencial, não dá para voltar pelo menos um pouquinho mudado.

Caso esse seja seu próximo destino, só tenho uma coisa para te desejar: bon camino!*

* cumprimento tradicional entre os peregrinos

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