A cidade sagrada de Varanasi

Nossa última parada na Índia foi Varanasi, no Estado de Uttar Pradesh. Nos despedimos do tradicional roteiro turístico indiano e fomos em direção à cidade mais sagrada para os hindus.

Em toda a viagem ficou bastante claro que a vida na Índia é regida primordialmente pela religião, mas é em Varanasi que a religiosidade hindu atinge seu grau máximo. Demonstrações de fé estão por todos os lados e, todos os dias, milhares de indianos vindos de todo o país somam-se aos três milhões de habitantes da cidade e preenchem as ruas do centro velho em busca da purificação espiritual.

Fomos avisados para nos preparar para muita pobreza e cenas chocantes. De fato, a pobreza da cidade é um grande contraste com as suas riquíssimas cultura e história. As ruas são bem sujas, bagunçadas, barulhentas e cheias de pedintes. Para os hindus, morrer em Varanasi é uma honra, então muitos idosos, doentes e deficientes dirigem-se à cidade para esperar a morte. Em Varanasi, mais do que em qualquer outro lugar que passamos, tivemos que nos despir de preconceitos e imergir na cultura local. Feito isso, a aura e energia da cidade passaram a falar mais alto e fizeram com que a visita se tornasse uma experiência encantadora.

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Chegamos no fim da tarde e, como o tempo estava curto (nosso vôo teve um pequeno atraso), deixamos as malas na van para levarem pro hotel (ficamos no Hotel Radisson, um cinco estrelas com  serviço de três) e já fomos direto assistir uma cerimônia no Rio Ganges.

Assistir as cerimônias que ocorrem diariamente no rio é uma das principais atrações turísticas da cidade. O rio Ganges, aliás, é um dos principais motivos para a cidade ser considerada sagrada.

Para a religião hindu, o Rio Ganges é a personificação da deusa Ganga, que desceu à Terra a pedido de um rei hindu para anistiar seus pecados. Desde então, o rio passou a ser um símbolo de redenção e purificação das almas. Uma curiosidade da lenda é que, nas imagens, o rio Ganges parece nascer da cabeça do deus Shiva. Isso acontece porque Shiva ofereceu sua cabeça para amortecer o impacto da descida da deusa Ganga à Terra, evitando que a queda brusca de água gerasse um desastre.

Hoje, o rio tão sagrado é considerado um dos mais poluídos do mundo. Suas águas parecem não fluir para lugar nenhum e, em algumas partes, diz-se não haver nenhuma molécula de oxigênio. Surge aí mais um contraste daqueles que só a Índia pode proporcionar: o rio, que é tão morto, enche-se de vida ao tornar-se palco das celebrações religiosas mais intensas da Índia.

A cerimônia que fomos assistir logo na chegada chama-se Cerimônia Aarti. Realiza-se todos os dias após o pôr-do-sol, cerca de sete da noite, no Dasaswamedh Ghat, também chamado de ghat principal. Para chegar lá, a van nos deixou em um local para pegarmos um tuc-tuc até metade do caminho. A outra metade fizemos a pé e, no meio da multidão que se dirigia ao mesmo local, aproveitamos para ter a primeira (e, confesso, chocante) visão da cidade.

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Cerimônia Aarti vista do Ganges.

A cerimônia aarti é dedicada ao agradecimento à Mother Ganga, a deusa-rio. É um momento de agradecer, louvar e não de fazer pedidos. Durante quase uma hora, os agradecimentos são feitos num ritual muito bonito, entoado por mantras. O fogo, muito utilizado no ritual, e as oferendas de flores coloridas com velinhas acesas jogadas no rio dão um toque especial à celebração.

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Os turistas podem assistir tudo sentados nas escadarias, nos terraços dos prédios em frente ao ghat ou então, de um barco dentro do rio. Nesse primeiro dia, assistimos à celebração de um barco e aproveitamos para fazer nossa oferenda.

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A cara denuncia o cansaço! Mas valeu a pena correr pra assistir a cerimônia!

O barco nos levou depois para uma voltinha rápida nos entornos do ghat principal. Nesse breve passeio, pudemos observar de longe as enormes fogueiras que indicavam os locais dos ghats crematórios, uma atração mórbida, mas muito interessante que deixamos para conhecer melhor no dia seguinte.

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Cremações no Manikarnika ghat

Na manhã seguinte, acordamos bem cedinho (tipo 5 da matina) para conhecer a cerimônia diurna do Ganges. Todos os dias, milhares de hindus vão cedinho aos ghats para banhar-se no rio Ganges. A primeira impressão – como não poderia deixar de ser – é chocante. Nós com medo de que uma gotinha daquela água pudesse nos contaminar com algum micróbio super resistente à sujeira e os hindus mergulhando de cabeça na água!!

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Abstraindo o nojinho inicial, passamos a apreciar uma série de manifestações de fé contagiantes: prece, meditação, agradecimento…são crianças, idosos, jovens, famílias inteiras em busca de purificação da alma para começar mais um dia. Pegamos novamente um barco, dessa vez para ter uma vista panorâmica dos ghats.

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Amanhecer no Ganges

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Cada ghat tem uma função: há o ghat destinado às vacas, o destinado a lavar roupas (sim, tudo na mesma água, apenas uma escadaria diferente), o ghat das viúvas, das solteiras, etc…

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Oferenda nunca é demais! aproveitamos pra fazer mais uma!

Os prédios super antigos dos ghats antigamente pertenciam aos marajás. Cada marajá de cada Estado tinha um prédio para chamar de seu. Após o fim dos benefícios, os prédios foram abandonados e, hoje em dia, a grande maioria é ocupada por mendigos. São construções lindíssimas, mas muito deterioradas.

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Após ver de longe alguns ghats, descemos para conhecer o principal ghat crematório, o ghat Manikarnika, aquele que havíamos visto na noite anterior com as imensas chamas. As chamas ainda estavam lá. O crematório funciona 24 horas por dia a céu aberto para dar conta da demanda de corpos. Ali no Manikarnika cada corpo ganha a sua fogueira e é necessário pagar pela cremação. Tirar fotos dos corpos é proibido, além de ser uma enorme falta de respeito. Não dá para esquecer que ali estão famílias se despedindo de seus mortos.

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Manikarnika Ghat

Para quem não tem dinheiro para pagar, há outro ghat crematório público, onde todos os corpos são queimados em uma mesma fogueira comum.

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Ghat crematório público.

Por conta da lenda da purificação de pecados, é uma honra para os hindus ser cremado e ter as cinzas atiradas ao rio Ganges. Eles acreditam que a remissão da deusa pode levá-los para a felicidade eterna e livrá-los de uma nova encarnação.

Embora seja uma visita um tanto quanto mórbida, o ritual de morte faz parte importante da cultura hindu. São, no total, 12 dias de luto. Durante os 3 primeiros dias após a morte há a cremação e, então, o astrólogo da família diz qual é o melhor dia para levar as cinzas ao Ganges. Se a cremação ocorrer já em Varanasi, levar as cinzas é muito mais fácil (por isso a alta “demanda” dos crematórios), mas, se a cremação ocorrer longe da cidade, os parentes costumam levar as cinzas ao rio. Não são todas as cinzas q são jogadas no rio, apenas algumas partes, como dentes, etc. o resto é deixado para se decompor e retornar aos elementos água, ar, terra e fogo.

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É comum gurus cobrirem-se de cinzas para demonstrar desapego aos bens materiais da vida.

O curioso é que até que sejam jogadas as cinzas, acredita-se que a alma ainda está lá, assim, é preciso deixar comida e bebida para o morto e, caso haja necessidade de viajar à Varanasi de trem ou avião, por exemplo, é necessário comprar uma passagem extra para a alma que está indo também.

Outra questão interessante sobre o ritual de morte hindu é que homens sagrados (os chamados gurus) e crianças não são cremados. Os primeiros porque não tem pecados a expiar e as crianças porque não viveram o suficiente para completar o ciclo de vida necessário a uma encarnação completa e necessariamente terão que reencarnar. Nesses casos, o corpo é amarrado a uma pedra e jogado no fundo do rio.

Do próprio ghat crematório rumamos a pé para conhecer o templo Kashi Vishwanath, também conhecido como o Golden Temple por conta de suas cúpulas douradas. No caminho, nos divertimos com as caras dos turistas que cruzávamos, todos chocados pelo cenário da caminhada, um labirinto de ruas estreitíssimas e sujas. Possivelmente nossa cara era a mesma!

Chegamos a uma fila imensa. Depois de uma conversa estranha entre nosso guia e o que ia nos levar para o templo, meio que entramos no meio da fila e demoramos menos do que esperávamos para entrar na área do templo. Grande decepção! Já sabíamos que não hindus não podiam entrar no templo e que o veríamos só de fora. O que não sabíamos é que o “de fora”, na verdade, era ver apenas o topo da cúpula dourada por trás de um muro, depois de subir num degrauzinho numa ruela. Roubada total!

A próxima parada prometia compensar a decepção. Pegamos a van e fomos em direção à Sarnath, região residencial da cidade. Varanasi não é uma das cidades mais sagradas do mundo à toa. Também é considerada uma cidade importantíssima para o budismo já que em Sarnath está o Parque do Cervo, onde se diz ter o Buda Sidharta Gautama proferido o seu primeiro sermão sobre os princípios básicos do Budismo.

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A stupa foi construída no local do primeiro discurso de Buda

O local em si não tem muito a se fazer. Ali estão algumas ruínas e uma grande stupa construída no local onde se acredita que buda teria proferido seu primeiro discurso. Na região há diversos templos encomendados por países budistas e o local é um dos mais importantes para os peregrinos da religião.

Visitamos alguns templos e também um pequeno museu com antiguidades da região. A cidade de Varanasi, vale lembrar, é muito antiga e há registros da existência de comunidades no local datados do século III a.C.

Ao voltar, nosso guia que era muito chato (o que demos de sorte com o guia anterior, demos de azer com esse…era péssimo!) queria nos levar a uma fabrica de seda…típico programa “explora-turista”. Demos uma desculpa para nos livrar dele, pedimos para nos deixarem próximo ao ghat principal para podermos aproveitar mais um pouco da cidade por conta, sem ele no nosso pé!

Tiramos o resto do dia para conhecer os ghats a pé. Caminhamos por metade deles seguindo do ghat principal em direção aos ghats da direita, observando de perto o que havíamos visto do barco pela manhã. É um passeio bastante interessante. Caso vá passar mais de uma manhã na cidade, vale a pena passar pelos ghats no amanhecer um dia de barco e o no outro à pé.

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No fim da tarde, voltamos ao ghat principal para assistir a cerimonia aarti novamente de um outro ângulo. Subimos na sacada de um restaurante (eles cobram pelo lugar um consumo mínimo de uma bebida, refrigerante, café ou água) e assistimos novamente a linda cerimônia. A visão de lá é bem mais ampla e, caso tenha que escolher entre ver do barco ou do terraço do restaurante, recomendamos bastante o restaurante.

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Ao final da curta passagem por Varanasi, uma certeza: é uma cidade encantadora pela imensa quantidade de belezas que não se vê, apenas se sente.

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Veja também:

Nós Vamos Para a Índia!! – o que esperávamos, nosso roteiro e dicas práticas

Nós Fomos Para a Índia …. e Amamos!!! – impressões gerais e mais dicas práticas

Delhi: a capital do subcontinente indiano

Udaipur – A Primeira Parada no Rajastão

Ranakpur – Os Templos Jainistas

Jodhpur – A Cidade Azul

Jaipur – A Cidade Rosa do Rajastão

Fatehpur Sikri – A capital abandonada do Império Mongol

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A cidade sagrada de Varanasi

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