Um pequeno pedaço do Caminho de Santiago de Compostela

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Eu sempre tive interesse pelo Caminho de Santiago, mas sempre me faltava alguma oportunidade para fazê-lo. No ano passado, como já estaria no norte de Portugal, me ocorreu a ideia… não teria tempo de fazer o trajeto completo, mas por que não fazê-lo do meu jeito, ainda que só um pedaço? Afinal, não existe um só caminho – único é apenas o ponto de chegada, mas não a partida.

E aqui cabe só pontuar que são três as possíveis origens pra o Caminho de Santiago: o original, partindo da França; outro pela Espanha e o menor, de Portugal. Neste, a ideia original é partir da cidade do Porto e demora cerca de 10 dias. Usei este site aqui para poder ter uma ideia do cronograma e saber em quais cidades passaria a noite e do qual copiei o cronograma abaixo:

         caminho de santiago portugues

Como só seriam 03 dias de caminhada (em torno de 20, 25km/dia), não teria direito ao certificado oficial de peregrino – que só são dados àqueles que caminham, no mínimo 100km à pé ou 300 de bicicleta (é preciso ir carimbando nos locais pelo caminho para comprovar quando chegar em Santiago). Mas não me importei.

Um problema de não ter o certificado é não poder ficar nos albergues no caminho – gratuitos, na maioria dos casos, e se pede apenas uma contribuição. Mas, de qualquer forma, acho que, mesmo se pudesse, não optaria por esta forma de hospedagem, porque já estava levando minha mochila com o básico do que ia precisar e não queria o peso de levar também tolha e roupa de cama! Qualquer peso extra já é um sacrifício no final do dia. E, além disso, queria poder ter o conforto de um hotel com tudo arrumado quando chegasse destruída da caminhada.

Afinal, ainda que fosse caminhar pouco tempo perto de quem faz o caminho completo, pra mim, acostumada só com 30 minutos na esteira da academia, o esforço era muito! Também por isso, levei um kit providencial com esparadrapo, bandaid, dorflex e talco (tinha lido que era bom pra evitar qualquer atrito e possíveis bolhas no pé), além de várias barras de proteína pra comer no caminho.

Assim, peguei um ônibus e fui direto à Pontevedra, uma cidade muito charmosa já na Espanha (apesar de começar na Espanha, o caminho que fiz faz parte do trajeto da rota portuguesa), onde fiquei no hotel Ruas (razoável, nada demais, mas bem localizado). Queria ter ido antes só pra aproveitar a cidade e conhecer os vários bares e restaurantes da região, mas não consegui.

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Como ia sozinha, tinha imprimido diversos mapas com medo de me perder no caminho, mas, sinceramente, eles foram de pouca valia – no meio de diversas plantações de uva, matas, riachos e ovelhas, os mapas não indicavam para onde eu tinha que ir, apenas davam, de vez em quando, uma noção de quantas cidadeszinhas ainda faltavam… A única coisa que eu realmente podia me apegar era nas setas amarelas ou nas conchas (símbolo do Caminho), pintadas nas paredes, nas casas, no chão. E elas efetivamente pontuaram toda minha trajetória. A alegria de ver uma seta quando eu não sabia se tinha que ir para a direita ou a esquerda era imensa.

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De Pontevedra caminhei durante cerca de quatro horas seguidas à Calda de Reis, outra cidade simpática, mas beeem menor. Meu hotel, Balneario Acuña, era literalmente no meio do Caminho. Não precisei desviar nem um metro para encontra-lo! E principalmente por isso o indico para quem tiver fazendo a peregrinação. Ao lado do hotel, tinha um restaurante simples, mas com wi fi e fiquei lá praticamente o resto da tarde admirando a paisagem e me recuperando.

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No dia seguinte, caminhei umas quatro, cinco horas direto até a cidade Padrón. Infelizmente, não posso falar da cidade, porque meu hotel (do qual me arrependi muito de ter ficado), era afastado do centro uns 3km e no meio da estrada. A decepção de chegar na cidade mas ainda não no hotel – pra poder tirar o tênis imediatamente! – , pra mim foi tão frustrante que nem consegui reconhecer que as acomodações eram até boas (pra deixar registrado: chama-se Hotel Scala).

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No último dia, forrei meu pé com esparadrapo e, já sentindo algumas bolhas no pé, parti para o destino final. Peguei chuva todos os dias, mas neste último a chuva engrossou e dificultou bastante o trajeto. Tinha levado um casaco impermeável (indispensável), capa para a mochila (também imprescindível!), mas mesmo assim a situação estava feia.  Foram as piores horas de caminhada (eram várias subidas e descidas) que, claro, juntou com a expectativa da chegada.

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Aqui cabe fazer uma observação: fui em novembro, numa época pouco aconselhável – além da chuva, as paisagens não estão tão bonitas e o pior: não tinha praticamente ninguém no caminho. Vi pessoas locais, um ou outro peregrino de bicicleta, mas ninguém a pé pra fazer companhia ou dar aquele apoio moral! Até tinha visto um casal de peregrinos no café da manhã de um dos hotéis, mas, no caminho mesmo, ninguém! Caminhava horas sem ver uma única pessoa, até aparecer um bar ou um mini mercado pra poder comprar mais água ou algum isotônico. Se tivesse outra opção de data, com certeza, não iria no inverno!

Entrei em Santiago longe da Catedral – ponto final da peregrinação – e já na cidade, não conseguia mais achar as setas amarelas e tive que ir pedindo informação a cada esquina para poder chegar. Quando finalmente alcancei a igreja, a chuva aumentou tanto que sequer consegui bater uma foto daquele momento que achei que seria o mais importante – tinha imaginado uma chegada quase triunfal e que, além da foto, teria alguém pra abraçar ou pra me dar parabéns pelo meu mini trajeto (aí eu senti por ter ido sozinha).

Subi os degraus da igreja, mas a entrada principal estava fechada. De tão cansada, acho que devo ter demorado uns cinco minutos pra perceber que tinha que entrar pela porta lateral. Mas, quando finalmente consegui sentar na igreja, e enquanto estava me recuperando e agradecendo por tudo e por todos por quais eu tinha decidido fazer a caminhada, eu percebi a dimensão do que ela tinha sido. Independentemente de não ter tido uma chegada tão bonita quanto eu imaginei, a experiência tinha sido única.

Foto do dia seguinte a minha chegada quando a chuva (por pura Lei de Murphy!) deu uma trégua!

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igreja

Depois, fui para o meu hotel que, apesar de bem localizado, era numa rua tão pequena que demorei pra encontra-lo. Sabia que era bem simples, mas não tinha percebido que, para o meu desespero, não tinha elevador (eu fiquei no 2º andar, mas as escadas naquele momento me pareciam intermináveis).

No dia seguinte era domingo e ao meio dia acontece sempre a missa especial dos peregrinos. O padre homenageia cada um deles pelo seu país de origem, falando de onde vieram e o quanto caminharam. Foi somente neste momento que me doeu um pouco não ter tido o certificado: naquele dia não havia nenhum vindo do Brasil e a minha caminhada não contava pra eles.

Mesmo ainda cansada, saí para passear pelas ruelas de Santiago que, seja fazendo ou não o Caminho, também valem muito a pena de serem conhecidas. E ali era mesmo o melhor lugar pra me recuperar: com um bom vinho e desfrutando da deliciosa culinária galega.

                                                          galicia

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2 thoughts on “Um pequeno pedaço do Caminho de Santiago de Compostela

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